Nutrição como pilar essencial da qualidade de vida

Da mesma forma que um automóvel precisa de combustível ou eletricidade para funcionar, o nosso corpo necessita de substratos essenciais para manter a nossa vida de forma adequada. Alguns desses substratos são os nutrientes. Porém, de forma muito diferente do abastecimento de um veículo, a alimentação humana não é realizada de forma simples e automática, e muito pelo contrário, sofre inúmeras influências.

Ao longo dos séculos e principalmente nas últimas décadas, o estilo de vida das populações mudou de forma brusca. Em muitas regiões a maior parte dos alimentos consumidos ao longo do dia não vêm diretamente da natureza, e sim da indústria alimentícia.

O processamento industrial dos alimentos pode ter seus benefícios quando falamos por exemplo de métodos de separação, limpeza, embalagem, para que alimentos saudáveis possam ser adquiridos nos centros urbanos com maior facilidade. O problema aconteceu quando surgiram os alimentos ultra processados, que são produzidos com grandes quantidades de ingredientes como gorduras, sal, açúcar e conservantes. Exemplos de produtos ultra processados são macarrão instantâneo, salgadinho de pacote, sopas prontas, barras de cereais, bolachas recheadas, dentre outros que contêm uma vasta lista de ingredientes com muitos nomes estranhos no rótulo (coisas que não costumamos ter nas cozinhas de nossas casas!). (Link Guia Alimentar: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf).

Eles invadiram a vida das pessoas não só pelo sabor agradável devido aos artifícios utilizados, mas também pela praticidade, são feitos para serem consumidos em qualquer lugar (em pé, dirigindo, sem prestar atenção...) e sem conseguir parar.

Não resta nenhuma sombra de dúvidas que o consumo de alimentos ultra processados piorou a qualidade da alimentação das pessoas como um todo, e trouxe muitos riscos à saúde. Muitos estudos científicos já mostraram que quanto maior o consumo de alimentos ultra processados, aumenta o ganho de peso corporal, o risco de desenvolvimento de doenças crônicas ligadas a alimentação como diabetes, pressão alta e colesterol alto, e ainda a mortalidade (Link ULTRAPROCESSADOS FAO: https://www.fao.org/3/ca5644en/ca5644en.pdf).

 E não para por aí, um estudo com 14.907 adultos Espanhóis acompanhados por aproximadamente 10 anos, mostrou que aquele que mais consumiam alimentos ultra processados tiveram maior risco de desenvolvimento de depressão (Link do artigo depressão: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31055621/).

Considerando tudo isso, podemos dizer que a alimentação de grande parte das pessoas está indo na contramão da garantia da saúde e da qualidade de vida, que devem garantir o completo estado de bem-estar físico, mental e social (Link Organização Mundial da Saúde (OMS): https://www.who.int/data/gho).

Nesse sentido hoje a ciência da nutrição apesar de inúmeras e robustas evidências científicas relacionadas ao tema, se depara com um grande desafio: levar esse conhecimento de forma simples e praticável no dia a dia para promover a qualidade de vida e o bem-estar em todos os seus pilares.

Na perspectiva do bem-estar físico o programa nutricional deve promover a autonomia do indivíduo para implementação de uma alimentação com o menor teor de ultra processados, preferencialmente dentro de um padrão alimentar baseado em alimentos vegetais (plant based-diet). Essa combinação resulta em controle e menor incidência de doenças crônicas não transmissíveis e ainda diminuindo a mortalidade. Estamos em busca de retomar velhos e bons hábitos, a exemplo daqueles praticados pelos indivíduos mais longevos do mundo, que residem nas Blue Zones (Link artigo Blue Zones: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35780634/).

Sobre o bem-estar mental, podemos destacar diferentes relações. Enquanto a prática de uma alimentação adequada garante os nutrientes necessários ao adequado funcionamento cerebral, por outro lado, a alimentação inadequada além de aumentar desfechos como depressão, ainda pode gerar outros distúrbios relacionados a preocupações relacionadas com a piora do estado de saúde. Transtornos comportamentais por sua vez dificultam muito a manutenção de uma alimentação saudável, e por isso precisam ser manejados por equipe multiprofissional.

Por fim, a alimentação é além de uma necessidade, um ato social. Comer faz parte dos melhores momentos de nossas vidas. Comer é socializar, é demonstrar e receber amor, é prazer. Porém, devido inúmeras mudanças nas rotinas, nas formas de trabalho, nas estruturas familiares e nas tecnologias disponíveis, isso foi se perdendo ao longo do tempo. É urgente que isso seja retomado, aproximando as pessoas novamente da escolha e do preparo dos alimentos, de forma simples e prática, para que a nutrição complete seu papel como pilar essencial na garantia da qualidade de vida.

 

Luiza Antoniazzi
Nutricionista
CRN-3 26.266